Para encerrar esta trilogia sobre fatos históricos do Brasil — que muita gente desconhece ou lembra de forma excessivamente simplificada — compartilho algumas informações que ajudam a compreender melhor o país e mostram como a realidade costuma ser mais complexa do que as narrativas polarizadas do presente.
A verdade é que a história brasileira é cheia de nuances: heróis com sombras, vilões com motivações compreensíveis, decisões tomadas sob pressão e consequências inesperadas. Os fatos ajudam a escapar de debates rasos do tipo “ditadura boa ou ruim” ou “esquerda/direita sempre certa”.
O golpe de 1964 teve apoio popular inicial significativo
Antes do golpe, o governo João Goulart enfrentava inflação elevada, greves frequentes e um clima de instabilidade política, além do medo, amplamente disseminado, de uma suposta “comunização” do país. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, reuniram centenas de milhares de pessoas nas ruas, inclusive em São Paulo e no Rio de Janeiro. Setores da classe média e grupos conservadores viam a intervenção militar como uma “salvação”. Esse apoio, porém, foi se dissolvendo ao longo dos anos, à medida que a repressão política, a censura e a crise econômica se aprofundaram.
Getúlio Vargas foi adorado por trabalhadores e rejeitado por elites — até o fim
Getúlio Vargas criou a CLT, instituiu o salário mínimo e fundou a Petrobras, consolidando a imagem de “pai dos pobres”. Ao mesmo tempo, governou como ditador durante o Estado Novo (1937–1945), censurando a imprensa e reprimindo opositores. Seu suicídio, em 1954, com a famosa carta-testamento, evitou uma ruptura institucional imediata e ajudou a conter uma crise política que poderia ter resultado em um golpe. Até hoje, Vargas divide opiniões.
A Independência do Brasil foi negociada — e custou caro
Dom Pedro I não proclamou a Independência apenas por impulso às margens do Ipiranga. O processo envolveu negociação com Portugal: o Brasil pagou cerca de 2 milhões de libras esterlinas, obtidas por meio de um empréstimo inglês, como indenização para que a independência fosse reconhecida. Portugal manteve privilégios comerciais, o que revela uma independência política acompanhada de forte dependência econômica.
Os Estados Unidos apoiaram ativamente o golpe militar Documentos desclassificados confirmam que a operação “Brother Sam” mobilizou uma frota naval americana para intervir caso houvesse resistência ao movimento golpista. O então embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, e a CIA mantiveram contato direto com os militares e financiaram ações anticomunistas. Esse histórico ajuda a explicar a desconfiança recorrente de setores da esquerda brasileira em relação aos Estados Unidos — não se trata apenas de retórica ideológica.
O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão
A Lei Áurea foi assinada em 1888, após intensa pressão internacional — especialmente inglesa —, mobilização de movimentos abolicionistas internos e fuga em massa de pessoas escravizadas. Não houve qualquer política de integração social ou econômica para os libertos. A ausência de indenização aos ex-proprietários gerou forte ressentimento entre as elites agrárias, que passaram a apoiar o golpe republicano de 1889, contribuindo para a queda da monarquia.
A República Velha (1889–1930) foi uma oligarquia disfarçada de democracia
Eleições eram sistematicamente fraudadas por meio do voto de cabresto e do chamado “bico de pena”. Minas Gerais e São Paulo alternavam o poder presidencial na política do “café com leite”, enquanto o coronelismo dominava o interior do país. Revoltas populares, como a da Vacina (1904), e a própria Revolução de 1930 evidenciam o grau de exclusão política da maior parte da população.
Juscelino Kubitschek construiu Brasília com crescimento — e endividamento
O lema “50 anos em 5” impulsionou um crescimento econômico expressivo, com média anual em torno de 8%. Em contrapartida, o país enfrentou inflação elevada e aumento significativo da dívida externa, sobretudo por meio de empréstimos internacionais e acordos com os Estados Unidos. Parte da instabilidade econômica que marcou o início dos anos 1960 tem raízes nesse período.
A redemocratização de 1985 não teve eleição direta para presidente
Tancredo Neves foi eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral e morreu antes de tomar posse. Coube a José Sarney — ex-aliado do regime militar — assumir a Presidência. Apesar das mobilizações massivas das Diretas Já, em 1984, a emenda Dante de Oliveira não foi aprovada. A primeira eleição direta para presidente só ocorreria em 1989.
A história do Brasil, como se vê, não cabe em slogans nem em versões simplificadas. Entendê-la exige aceitar contradições, reconhecer erros e resistir à tentação de transformar o passado em instrumento de guerra ideológica no presente.
Lia Estevão - Jornalista
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