Nada no mundo é pior do que a sensação de inadequação
Ela não chega avisando. Não toca a campainha nem pede licença. Acontece de repente — numa reunião em que todo mundo parece falar com segurança sobre coisas que você domina, mas não consegue dizer. Numa conversa de bar que escorrega para slogans rasos, enquanto você sente vontade de aprofundar e percebe que ali não há espaço. Num almoço de família em que suas escolhas viram motivo de silêncio constrangido ou ironia mal disfarçada.
A
sensação de inadequação nasce justamente aí: quando o que somos não encontra
eco no ambiente. E não porque somos “menos”, mas porque somos deslocados
daquele tom dominante que exige respostas rápidas, opiniões prontas e certezas
gritadas.
Vivemos
numa sociedade que valoriza a performance, não a reflexão. Quem pensa demais
“complica”. Quem pondera “enrola”. Quem faz perguntas vira “chato”. E, aos
poucos, quem não se adapta a esse ritmo começa a achar que o problema é
interno. Que não pertence.
Talvez a
saída não seja “se adequar”, mas escolher melhor os espaços. Entender
que não somos inadequados por inteiro — apenas não cabemos em todo lugar. E
tudo bem. Alguns ambientes não foram feitos para profundidade. Algumas pessoas
não suportam espelhos.
A
sensação de inadequação dói porque toca num desejo humano básico: o de ser
reconhecido. Mas, com o tempo, ela também pode ensinar algo valioso — que
permanecer fiel a si mesmo, mesmo cansada, mesmo desacreditada, ainda é uma
forma de resistência.
E, hoje
em dia, resistir já é muito.
Lia Estevão - Jornalista
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