Inadequada ou apenas lúcida demais? A solidão de quem pensa demais

 Nada no mundo é pior do que a sensação de inadequação

Ela não chega avisando. Não toca a campainha nem pede licença. Acontece de repente — numa reunião em que todo mundo parece falar com segurança sobre coisas que você domina, mas não consegue dizer. Numa conversa de bar que escorrega para slogans rasos, enquanto você sente vontade de aprofundar e percebe que ali não há espaço. Num almoço de família em que suas escolhas viram motivo de silêncio constrangido ou ironia mal disfarçada.

A sensação de inadequação nasce justamente aí: quando o que somos não encontra eco no ambiente. E não porque somos “menos”, mas porque somos deslocados daquele tom dominante que exige respostas rápidas, opiniões prontas e certezas gritadas.

Muita gente chama isso de baixa autoestima. Às vezes é. Mas nem sempre.
Em muitos casos, é o oposto: é lucidez demais em um mundo que prefere a superficialidade. É ter argumentos, e perceber que não há diálogo possível. É saber escutar, e notar que ninguém quer ouvir.

Vivemos numa sociedade que valoriza a performance, não a reflexão. Quem pensa demais “complica”. Quem pondera “enrola”. Quem faz perguntas vira “chato”. E, aos poucos, quem não se adapta a esse ritmo começa a achar que o problema é interno. Que não pertence.

O problema é que pertencer, hoje, muitas vezes exige abrir mão da complexidade.
E nem todo mundo consegue — ou quer — pagar esse preço.

Como se enfrentam essas situações no dia a dia? Cada um do seu jeito.
Há quem se cale. Há quem se irrite. Há quem finja concordar só para não se sentir excluído. Há quem se recolha para dentro de si — e é aí que mora o perigo maior: quando o silêncio vira isolamento e o isolamento vira descrença.

Talvez a saída não seja “se adequar”, mas escolher melhor os espaços. Entender que não somos inadequados por inteiro — apenas não cabemos em todo lugar. E tudo bem. Alguns ambientes não foram feitos para profundidade. Algumas pessoas não suportam espelhos.

A sensação de inadequação dói porque toca num desejo humano básico: o de ser reconhecido. Mas, com o tempo, ela também pode ensinar algo valioso — que permanecer fiel a si mesmo, mesmo cansada, mesmo desacreditada, ainda é uma forma de resistência.

E, hoje em dia, resistir já é muito.

Lia Estevão - Jornalista

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