Tenho andado fascinada por uma coisa que talvez seja consequência de ficar mais tempo em casa, com o tornozelo imobilizado e a televisão virando uma espécie de janela para o mundo: a extraordinária qualidade dos jovens artistas e atletas asiáticos.
Pode ser uma apresentação do BTS, uma música do Forestella, uma coreografia de patinação de Yuzuru Hanyu, uma ginasta chinesa fazendo coisas que desafiam as leis da física ou um nadador atravessando a piscina como se tivesse sido fabricado para aquilo.
Eu olho e penso: como é que alguém consegue fazer isso?
Depois olho para o meu tornozelo, que neste momento considera atravessar o corredor uma prova olímpica, e concluo que provavelmente não nasci para o esporte de alto rendimento.
Mas há outra pergunta que começou a me incomodar:
Quanto custa chegar a tanta perfeição?
Porque nós, espectadores, só vemos o produto final.
Vemos a roupa impecável, o sorriso, a música, o salto, a pirueta, a medalha. Vemos o artista entrando no palco sob uma chuva de luzes e saindo debaixo de aplausos.
Não vemos o adolescente que começou a treinar quando outras crianças ainda estavam brincando.
Não vemos a repetição número 347 de um movimento que precisa sair perfeito.
Não vemos a dor muscular, a lesão escondida, a dieta, a cobrança do treinador, a saudade dos pais, a competição permanente com alguém que pode ser apenas meio segundo melhor.
E, principalmente, não vemos o cansaço.
Há relatos e pesquisas recentes mostrando que jovens atletas chineses de alto rendimento convivem com uma combinação particularmente pesada: treinamento intenso, estudos, competições e pressão psicológica. Em entrevistas, alguns descrevem não apenas o corpo cansado, mas o medo de fracassar, de perder espaço na equipe e de não corresponder às expectativas.
E a pergunta que me vem imediatamente é: eles têm tempo para ser jovens?
Tempo para dormir até mais tarde?
Para namorar?
Para ficar jogando conversa fora?
Para ir ao cinema?
Para passar uma tarde inteira sem fazer absolutamente nada?
Aquela maravilhosa atividade humana chamada “não fazer coisa nenhuma”, que nós brasileiros conhecemos tão bem e talvez devêssemos até patentear.
Em algumas escolas esportivas chinesas, crianças muito pequenas entram cedo em programas de treinamento intensivo. Há relatos de jornadas que chegam a muitas horas por dia.
É claro que o sistema chinês não é uma coisa parada no tempo. Nos últimos anos, o país vem tentando aproximar esporte e educação e reduzir alguns dos excessos da pressão acadêmica sobre crianças e adolescentes. Mas o próprio fato de essas mudanças terem sido necessárias mostra que a questão é complexa.
E não é só na China.
O fenômeno aparece também na Coreia do Sul, onde o sistema de formação de artistas do K-pop é conhecido pela competição brutal. Antes de existir um BTS, existe uma legião de jovens que treinou durante anos sem sequer saber se um dia chegaria ao palco.
Cantam, dançam, estudam idiomas, fazem avaliações constantes, cuidam da aparência e vivem sob a possibilidade permanente de serem substituídos por alguém considerado melhor.
O público, naturalmente, não vê nada disso. O público vê o BTS.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes ilusões do nosso tempo: confundimos excelência com facilidade.
Quando alguém executa uma coisa extraordinariamente bem, imaginamos que aquilo seja natural.
“Ela nasceu para isso.”
“Ele tem talento.”
“Esse menino é um fenômeno.”
Pode até ser. Mas talento sem treinamento é apenas uma promessa.
A perfeição que chega até nós em três minutos de apresentação pode ter custado dez anos de vida.
E há algo ainda mais curioso.
Depois de uma apresentação espetacular, o público se levanta, aplaude, pega o celular, vai embora e, no caminho para casa, alguém comenta:
— Bonito. Mas não foi tão bom. É quase engraçado.
O sujeito passou dez anos treinando para fazer aquilo e nós, que acabamos de terminar uma pizza e ainda estamos procurando onde deixamos o controle remoto, temos a coragem de dar nota.
Mas talvez seja essa a natureza humana. A gente se acostuma rapidamente com o extraordinário.
O que ontem parecia impossível amanhã vira obrigação. Se a ginasta faz um movimento fantástico, queremos outro.
Se o cantor alcança uma nota inacreditável, esperamos que a próxima seja ainda mais alta.
Se o patinador executa quatro saltos, começamos a perguntar por que não fez cinco.
A excelência, quando se transforma em espetáculo, deixa de ser admirada e passa a ser cobrada. Até o impossível ganhar prazo de entrega.
E isso me faz pensar também em nós, os brasileiros.
No Brasil, temos uma cultura extraordinária de improviso, criatividade, malandragem no bom sentido, capacidade de resolver problemas com um barbante, uma fita adesiva e uma ideia que surgiu cinco minutos antes.
É uma qualidade admirável. Mas às vezes levamos o improviso para além do razoável.
Queremos o resultado sem o processo.
O sucesso sem o treinamento.
O corpo bonito sem a academia.
O livro publicado sem escrever.
A empresa próspera sem planejamento.
O jogador campeão sem saber quantas horas ele treinou enquanto nós estávamos no churrasco.
Queremos que as coisas caiam do céu. E, quando não caem, reclamamos do céu.
Talvez por isso eu admire tanto esses jovens asiáticos que aparecem diante de mim na televisão.
Não porque ache que o modelo de cobrança levado ao extremo seja desejável. Longe disso.
Nenhuma medalha deveria valer uma infância perdida. Nenhum palco deveria exigir uma pessoa destruída. Nenhuma perfeição deveria custar a saúde de quem a produz.
Mas existe alguma coisa profundamente admirável na disciplina.
Na capacidade de repetir.
De errar e tentar outra vez.
De acordar no dia seguinte e fazer novamente aquilo que ontem não saiu perfeito.
Yuzuru Hanyu, já adulto e consagrado, contou recentemente que até em seus dias de descanso tem dificuldade de simplesmente descansar. A cabeça continua trabalhando, pensando no que precisa ser treinado.
Aquilo me impressionou. Porque talvez exista uma diferença enorme entre descansar o corpo e descansar a cabeça.
E nós, que assistimos ao espetáculo pronto, raramente pensamos nisso. Quando as luzes se acendem, o músico sorri. Quando toca a música, a ginasta entra.
Quando começa a apresentação, o patinador desliza. E tudo parece fácil.
Essa é a mágica.
Mas talvez a verdadeira mágica esteja justamente no que não aparece.
Nas horas silenciosas.
Nos erros.
Nas dores.
Na disciplina.
No esforço.
No preço que ninguém vê.
Por isso, da próxima vez que eu assistir a uma apresentação absolutamente perfeita, talvez eu não diga apenas:
— Meu Deus, como são incríveis!
Porém...
Vou tentar lembrar de perguntar: Quantas vezes essa pessoa precisou cair para aprender a parecer que nunca caiu?
Porque a gente vê o glamour.
Mas, quase sempre, a perfeição mora nos bastidores.
E pensando, com toda sinceridade: Será que ninguém avisou a eles que era permitido ser apenas razoável?
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Lia Estevão - Jornalista
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