Luque se foi de repente. E nos deixou aos prantos, inconformados

Luque, amado, por que você ao menos não esperou o Natal para partir? Por que não permaneceu com a gente?

Você sabia que é muito, muito feio deixar as pessoas que nos amam de forma tão inesperada e tão imbecil, e sem ao menos dar um tchau? Porra meu amigo, ainda tínhamos tantos planos para realizar juntos, e tantos anos pela frente. Mas você, simplesmente, partiu. Menino ingrato, por que deixou fazerem isso com você? Não estávamos nem um pouco preparados para sua ausência repentina.  

Veja as lágrimas que não deixam mais sua família sorrir, a tristeza e a saudade que tomou conta dos dias dela, a dolorosa perplexidade diante de sua partida. Parece que nada mais faz sentido, sabia? Despedaçados é como estamos. e aos prantos. 

Pôxa, você também nem esperou a chegada do primeiro garotinho da família. Garanto que iria amar dar lambidinhas em pés tão pequeninos. E ficar feliz por nos ver sorrindo alegremente. Os seus humanos queridos.  

Quando os dias do verão chegar - e saiba que eles serão quentíssimos - bem do jeito que você gosta para tomar sol de barriga para cima e para entrar na piscina sem pedir licença. Aliás, só pedia licença mesmo para devorar a comidinha da Lana, aos domingos, porque sempre me respeitou, ou melhor, porque respeitava a priminha idosa. Como era agradável ver como devorava os alimentos. Sempre faminto, não é? Sempre doido por petiscos.

E agora? Como serão nossos domingos? Os domingos de sua mãe? Partir desse modo tão absurdo...ninguém merece tanta dor.

Agora, na piscina - que você curtia como ninguém - quem vai nadar ao nosso lado, incansável, e sempre brincando de pegar água com a boca? Saiba, seu bobinho, que água não se pega. Mas que era divertido, isso era mesmo. Veja, amor, também não era aconselhável morder (de leve) os pézinhos das crianças que nos visitavam, porque assustava as menininhas. Elas não sabiam  o quanto você, Luque, é meigo, doce, afetuoso, carinhoso, companheiro, um amigão de verdade. Incapaz de fazer qualquer mal a alguém.  
E um apaixonado pela sua família. Nós. 

Lembra, adoradinho, que seus avós não queriam que você entrasse na casa? Bem...Um querer que sequer durou uma noite. Você não só entrava como também sentava e deitava no sofá, via televisão, e dormia num colchãozinho gostoso pertinho da cama deles.

 

Acredito mesmo que você, meu querido, era feliz. E nós também ao seu lado.

Então, porque nos deixou, se prometemos envelhecer juntos. Não teve outro jeito, não é?  Procuro entender, procuramos todos entender. Mas o sofrimento... Sua mãe está inconformada, seus avós parecem seres sem energia para os afazeres diário, suas tias só querem dormir. E eu? Sei lá

Luque, nosso menino adorado, ainda não aceitamos sua partida, de tão ilógico que foi, irracional mesmo. E pensar que agora você é uma estrelinha no céu não alivia a perda. Que estrelinha? Que céu?

Amigo querido, prefiro acreditar que agora você  é  luz, uma luz que habita os corações e as mentes desta família, uma luz que ilumina todos os nossos caminhos. 

Que tristeza, menino  lindo, que dor
Lia Estevão - Jornalista

Produtora de Fotolivros e Albuns de fotos impressas

Apenas mansamente triste


Quando, de repente, senti um sono incontrolável e até um certo mal estar físico, imediatamente pensei em cansaço mental. Mas justificar esses sintomas com desculpas esfarrapadas do tipo "ontem trabalhei demais", não seria verdade. A  exaustão de hoje, meus amigos, é injustificável, só que ela aqui está e, confesso, me incomoda bastante.  

Quantos de vocês, dia ou outro, já vivenciou um abatimento absurdo? Essa perca de foco, de não querer fazer nada, nem sair para conversar com amigos ou se divertir... Penso que pode ser uma crise de tédio, um estado silencioso de aborrecimento, sem causas aparentes. Entretanto, espero que não. Se assim fosse, juro que não saberia como sair deste entorpecimento, onde não se consegue sentir ou expressar emoções. Se pensar um pouquinho mais, sem dramas ou angústias, posso dizer que apenas estou apenas triste, mansamente triste. O que até é justificável, já que vivemos um período de incertezas sociais, econômicas e políticas. De muito blá-blá-blá e de poucas realizações. Cadê a esperança de um amanhã de sol?

Tem uma sacada, aqui em casa, onde quase sempre balança uma rede bege, sem nenhum atrativo, ou sofisticação. Dessas que a gente compra na praia, durante as férias, e que vai envelhecendo conosco. Agora, de tão usada, toda vez que me acomodo para "pegar" um solzinho e ler um livro, sempre arrebenta um fio aqui, outro ali. Qualquer dia me esborracho no chão, com certeza. Antes, ela era bem mais bonitinha. Agora, olhando bem, ela está feiosa  e um tanto acabada como, aliás, estão os caminhos da maioria de nossa população.   

Pessoal, quero ir para a praia e lá comprar outra rede...bem colorida...para alegrar a sacada. Simples assim. Quero uma que aguente os quilos que ando ganhando dos chocolates que devoro e do pouco exercício que faço. Ou quero, simplesmente, ouvir por todos os cantos que o Brasil tem jeito, que está no rumo certo. 

Perdida entre tantos pensamentos aleatórios, neste espaço ensolarado da casa, dá para desvendar (um pouco) da razão do meu abatimento. Afinal, a descrença num futuro pleno de possibilidades para se conquistar sonhos e objetivos de vida justifica estar mansamente triste. 

Ainda ontem tivemos uma terrível pandemia, que nos aprisionou em pequenos espaços por mais de um ano, e fez cerca de 700 mil mortes apenas no Brasil, tivemos e temos ainda uma guerra entre Rússia e Ucrânia que deixa o mundo em atenção permanente. Também observamos um assustador crescimento de preconceitos, de racismo, de vaidades que destróem, de egoísmos que sufocam, de imcompreensões, do ódio que mata, da buscas descontroladas pelo poder, e por aí vai.  

Quero mesmo ir para a praia, e comprar uma rede nova, colorida, e trocar meu estado mansamente triste pelo alegre otimismo da esperança.



Lia Estevão - Jornalista

Produtora de fotolivros e albuns de fotos impressas

O complexo momento da aposentadoria: Ruptura e reconstrução

 

Inesperadamente, surge o momento de uma drástica ruptura em nosso estilo de vida, tão duramente conquistado. Devo dizer que esse momento raramente é bem vindo, porque acontece quando ainda temos planos e sonhamos com novas realizações. Sim, amigas, esse momento é quase cruel e sempre nos pega de surpresa.  

Ele ocorre quando ainda participamos ativamente de tudo o que nos rodeia, olhamos no espelho com satisfação, estamos dispostas a incrementar o visual com modernos cortes de cabelo e com as novidades fashion do mundo da moda. Nossa rotina também inclui muitos eventos, shows, jantares com amigos e baladas.

De repente, tudo acaba. Sensações de angústia e desânimo nos dominam e nos levam a outro universo, desconhecido e assustador, real, aonde o emprego se vai, os amigos desaparecem, e os convites não chegam. Acontece a ruptura (entre dois mundos), o desmoronamento (de sonhos e projetos), e o caminho à frente está envolto em sombras ameaçadoras. A aposentadoria bate na porta e entra.

Nessa hora, mudanças significativas se fazem urgente na vida de qualquer ser humano, se ele não quiser sucumbir ao abandono pessoal, à irrelevância social, e até à invisibilidade familiar.

A aposentadoria, embora seja um direito merecido após anos de dedicação e trabalho árduo, infelizmente muitas vezes vem acompanhada de um sentimento de vazio e desamparo. Incompreensões. Aliás, apesar de podermos aproveitar melhor o tempo livre e estabelecer novas metas, os desafios emocionais desse período exigem adaptação e planejamento adequados. Estamos preparados?

Para as mulheres, em particular, a nova vida pode trazer beneficios e malefícios únicos, além de revelar a realidade do abandono. Dos possíveis benefícios está o descanso de atividades obrigatórias, e nem sempre agradáveis, tempo livre para familiares e hobbies. A possibilidade de aproveitar a vida sem as obrigações profissionais traz benefícios emocionais e físicos para uma melhor qualidade de vida. E tem as atividades voluntárias, as aulas de dança, as viagens, e até mesmo abrir um negócio próprio. Uma liberdade que pode ser extremamente gratificante e transformadora. Só um detalhe: você está financeiramente preparada para tantos benefícios?

Então saiba que essa ruptura pode apresentar sérios desafios para mulheres com dificuldades financeiras, devido à disparidade salarial de gênero ao longo da carreira profissional, o que resulta em valores menores na terceira idade em comparação com os homens e, conseqüentemente, numa maior vulnerabilidade feminina. Triste, concordam?

Outro importante desafio: a falta de uma rede de apoio social sólida. No período de transição, perde-se o contato com colegas de trabalho e com amigos, que se distanciam. Pode-se (tentar) evitar o sentimento de solidão fortalecendo os laços familiares, buscar novas amizades e explorar atividades que promovam interações sociais saudáveis. 

E aceitar a nova realidade, disposta a ser feliz.



 

Lia Estevão

Jornalista e Produtora de Fotolivros  


 


Maria Butcher encanta com sua arte. Definitivamente.

Com voz macia e poderosa, e um carisma impressionante, Maria Butcher
 sempre surpreende aqueles que têm oportunidade de assistir aos seus shows. 
Nas apresentações, movimentos graciosos e leves são como uma dança
 que complementam as canções que tanto amamos ouvir. A platéia se encanta. 


Uma trajetória de muita dedicação

Não é de hoje que Maria, a cantora, batalha para conquistar os próprios espaços no meio artístico. Ser respeitada pelo público como uma profissional talentosa e diferenciada, sempre norteou o longo e árduo caminho que escolheu seguir. Com determinação e versatilidade admiráveis, combinadas a um repertório que transcende estilos musicais, ela alcançou o merecido reconhecimento.

Atualmente, aos 45 anos, Maria Butcher é uma mulher alegre e em paz. Seu dia-a-dia corrido é a maior prova de que venceu na carreira, e de que vive uma fase produtiva e maravilhosa. Com agenda repleta de compromissos e de convites para cantar, ela se sente extremamente feliz, embora lamente o pouco tempo que lhe resta para cuidar de si mesma (adora caminhar, fazer ginástica) e dedicar mais atenção aos seus muitos amigos. No entanto, quando se trata de seu filho, nada a impede de estar sempre presente e demonstrar todo o seu amor.

Desde criança morando em São Carlos, a paulistana Maria trilhou um caminho cheio de desafios, o que nunca abalou sua avassaladora paixão pela música, pelo canto, e pela dança. “Também nunca deixei de acreditar que tinha potencial para essas manifestações artísticas”, comenta bem humorada, “potencial suficiente para superar os entraves e seguir em frente”.

Quando decidiu se tornar artista e brilhar no cenário musical, ela não poupou esforços nem dedicação para se destacar em um universo tão competitivo. Viajou por diversos países (Inglaterra, China, Irlanda e Japão), aprendeu muito, amadureceu, e superou inibições nos cruzeiros que fez ao redor do mundo.  

Em 2013, Maria voltou ao Brasil e deu à luz seu filho, hoje com 10 anos. Dois anos depois, em 2015, abriu a própria empresa de comunicação e intensificou a já consagrada carreira profissional. “Com muito trabalho e persistência”, diz ela, “comecei a me destacar de uma forma mais tranqüila e prazerosa, a aceitar os desafios inerentes à carreira com mais serenidade”.


                            Paixão por São Carlos

Apaixonada por São Carlos reconhece e valoriza as inúmeras oportunidades que a cidade oferece a todos os artistas. “Comigo não foi diferente”, brinca, abrindo um largo sorriso. Comenta ainda que o público local sempre a recebeu com carinho, afeto.  “Sou imensamente grata a esta incrível cidade. Graças a ela vivo e me sustento apenas com minha arte”, comenta.

Além de produtora de eventos, compositora e diretora do São Carlos Clube, sua voz cristalina e refinado gosto musical, levam emoção e alegria para muitos casamentos, e eventos sociais, que acontecem na cidade. Ela brilha em todos os palcos, principalmente quando se apresenta ao lado do amigo, André de Souza. “É sempre maravilhoso me apresentar com ele. Além de excelente músico e cantor, André é um amigo muito querido, de alma pura e coração gigante, e que toca violão como ninguém”.

Seus projetos incluem o que há de melhor na música brasileira, sendo apaixonada por MPB. Shows como “As mulheres de Chico Buarque”, “Bossa Nova, um samba diferente”, “Chuva, suor e cerveja”, entre outros, além de uma homenagem a Marisa Monte, a colocam entre as mais respeitadas artistas do mundo da música.

Pode-se afirmar que a trajetória de Maria Butcher é uma inspiração para todos os jovens artistas, e uma prova de que talento e determinação abrem portas mesmo nos momentos mais desafiadores da vida. Sensível, inquieta, ela ama dizer a todos que agora é apenas Maria, a que canta.  

E quando a Maria mulher abraça a Maria menina ninguém resiste. Elas só refletem coração, alma, e muita empatia. Talvez, por isso mesmo, diz não precisar conhecer profundamente as pessoas para acreditar nelas e se entregar. “Sabe, eu confio na lealdade do ser humano”, conta ela, ”até que ele me prove o contrário, mesmo sabendo que isso aumenta as chances de novas decepções”.

Maria, a que canta, definitivamente encanta.      

Lia Estevão  (Jornalista)                            

 


"Você não tem mais idade para isso" A crueldade do etarismo



Você não tem mais idade para isso!”
Quem já ouviu isso?
Percebi, de um jeito ingrato, já que as angustias foram duramente superadas durante a lenta  passagem do tempo, que envelhecer sem amadurecer é como imergir num universo totalmente desfavorável onde é quase impossível continuar com a vida produtiva.  

O que acontece? Nos prendemos ao melhor do passado e, de quebra, ainda o moldamos alguns desses momentos de acordo com nossos desejos atuais. Tudo para nos fazer crer que, naquela época, a vida era perfeita e que agora, inesperadamente, outra realidade nos assombra ao sugerir (ou melhor, impor) uma existência mais comedida,  limitada e sem metas a conquistar. Uma existência cuja prioridade é ser saudável, deixando futuros projetos para os jovens. E a sociedade repete, e repete, "o tempo passou". 


Discriminação etária na
 esfera profissional é crueldade

Envelhecer, de fato, é uma arte. Amadurecimento e sabedoria transformam, para o idoso, cada amanhecer em um novo início, e com possíveis novas conquistas, sejam elas quais forem. Desde que as oportunidades se apresentem. Desde que os preconceitos sejam superados.

Então, meus amigos, o tempo de quem já viveu muitos anos não passou.  Ao contrário. Esse tempo o transformou numa pessoa mais informada, interessante, numa pessoa mais capacitada. 

Embora no Brasil, a idade que marca o início da velhice seja de 60 anos, verdade é que os idosos estão cada vez mais ativos. E ultrapassando os 90 anos.  Eles sabem cuidar da saude e trabalham, estando envolvidos em questões sociais, econômicas, culturais, espirituais e civis. Vamos evitar a crueldade do etarismo porque, se não morrermos, amanhã seremos nós os idosos.


Tipos de envelhecimento 

Envelhecimento biológico, sinalizado por um conjunto de mudanças físicas e orgânicas, com acúmulo progressivo de disfunções e diminuição da reserva e capacidade fisiológica;

Envelhecimento social, em que se verificam alterações nos papéis sociais, sendo principalmente alterações definidas pela sociedade;

Envelhecimento psicológico, onde se observam alterações da atividade intelectual e nas motivações, bem como alterações comportamentais e emocionais.


Preconceitos contra idosos que devem ser combatidos

  1. Atribuir o esquecimento à idade. ...
  2. Os mais velhos já “tiveram a sua vez” ...
  3. Os mais velhos são solitários. ...
  4. Os idosos estão “muito velhos para isso” ...
  5. Infantilizar o idoso.

Presente e passado barram um futuro de vivências

Não fui ao tão esperado (ao menos para mim) show dos meninos do Il Volo, dias 8 e 9 de março, em São Paulo. Uma questão de logística, creio eu. Afinal, não consegui solucionar as várias etapas necessárias para assistir ao espetáculo como, por exemplo, sair de São Carlos no interior paulista e ir para São Paulo, capital,  num percurso de 230 km, depois a nova locomoção para o local do evento e, findo o show, retornar para casa, em plena madrugada, ou, então, passar a noite num hotel. Detalhe importantíssimo: sozinha.

Hoje, mais calma e lúcida, sem o frenesi causado pela proximidade dos italianos Piero, Ignazio e Gianluca, penso que poderia superar todos os obstáculos, se coragem não me faltasse. 

É evidente minha falta de esforço e determinação para sair da zona de conforto e me aventurar na busca do que só traria excessos, de alegria, e de muita felicidade. O desafio era para ser aceito, pois a liberdade atual que possuo não aceita restrições. Entretanto, mais uma vez, recuei, permanecendo confortavelmente "grudada" ao sofa de casa, assistindo vídeos e entrevistas do trio pelo You Tube e... lamentando a sorte.

Não vou fazer uma análise simplista e nem falar a vocês que ficou tudo bem. Nada disso. Acredito ser mais honesto dizer que nada ficou bem, pois tal comportamento acovardado me remeteu a um passado de renúncias, desistências (não cabe aqui dizer os porquês desse comportamento) que, infelizmente, acabaram moldando uma falsa personalidade, mais introvertida e até um pouco triste. Falsa porque amo tudo o que deixei e deixo de fazer, a extroversão e o bom humor. 

No caso atual, a viagem que não fiz, os sorrisos que não dei, o encantamento de um musical apaixonante que não assisti, as vozes excepcionais que não ouvi, e os cantores que só me transmitem felicidade, alegria, diversão, mas que não presenciei... Mais uma vez: como vivenciar uma vida que não tive? Passado e presente ainda se fundem, infelizmente.

O medo de ousar, de enfrentar o desconhecido, de se jogar no mundo, sempre nos encaminha para o vazio, e nos envolve com o nada.

O simples fato de existir não leva ninguém a lugar nenhum. 




A triste decisão de Paula - Meu pequeno conto, quase uma crônica

Paula saiu do trabalho e foi direto almoçar. Rapidinho, engoliu a salada e a pequena torta de frango. Tomou um café e, sem nenhum aviso, sentiu um cansaço absurdo, uma certa confusão mental, e uma quase total apatia. Com esforço, levantou-se  da mesa e começou a andar. Queria chegar rápido mas não sabia onde. Stress? - perguntou a si própria - ou vou infartar aqui, no meio da rua? 

Após alguns passos, lentos e desordenados, parou novamente, e pensou que, sim, podia mesmo ser apenas exaustão. Tem estado muito tensa, sem foco, e vendo o serviço se acumular em sua mesa. Muitas consultas marcadas, muitos textos para escrever. Precisava reagir. Precisava decidir. Mas só quer descansar.

Em segundos, resolve não voltar ao escritorio. Já em casa, pega o celular, algumas fotos anrtigas, um livro que ainda não começou a ler, e caminha até seu pequeno jardim. Tudo no automático. Olha para as flores e plantas, poucas mas muito queridas, e checa se precisam de água. Resolve molhar um pouquinho cada uma delas. 

Ainda segurando o celular, o livro e as fotos, Paula senta-se na poltrona que sempre fica ali, esperando visitas inesperadas, tão cansadas quanto ela nesse momento. Hoje, a poltrona é sua. Se acomoda, coloca no chão o livro e as fotos, e começa a navegar na Internet. Não sabe exatamente o que deseja saber, ver ou ouvir. Muito estranho - reflete enquanto se acomoda na poltrona e fecha os olhos. Tem um sono incontrolável.

De repente, se vê novamente chegando em casa, mas desta vez toda radiante e brincalhona, de bom humor, beija Nick, seu filho de quatro patas, já a 10 anos vivendo ao seu lado. Ou mais. É jovem, mora sozinha, estuda e trabalha. Todos os dias, almoça ligeiro a salada de sempre, e toma um ou dois cafés, que adora. Paula gosta muito de sua rotina. Acredita que, com disciplina e determinação, determinada, ainda conquistará o mundo.  

Também desta vez, resolve não trabalhar à tarde. Cansada? Ao contrário. Está bem disposta e confiante. Mas quer passar a tarde refletindo e fazendo coisas que realmente gosta. Senta-se alegremente na poltrona do jardim, como faz sua mãe ao visitá-la, e começa a ler um livro. Também navega na Internet para conhecer o significado de cada palavra desconhecida. Às vezes, fecha suavemente os olhos. Paula se sente realmente feliz. 

Da cozinha a mãe chama. Sem saber como acontece, agora tem os olhos bem abertos, o coração aos saltos, as mãos úmidas, frias, e aquele cansaço brutal. 
"Paula, querida, onde você está?", pergunta a mãe em tom bastante aflitivo. "Vim te visitar. No trabalho disseram que estava doente. O que houve, está com febre?".

- Nada mãe, fica tranqiuila. Estou ótima! - porém começa a chorar com desespero. O que acontece? Paula não sabe e sua mãe tenta entender os motivos de tanta aflição, tanto desânimo. - Filha, venha para o quarto e se deite - Ela fecha as janelas do quarto e vai fazer um chá de maça com canela, bem quentinho, que a filha adora - Você vai ver que, rapidinho, estará bem melhor - comentou ainda bastante assustada.
Paula deita e fixa o olhar no teto estrelado. Fecha novamente os olhos esverdeados. Pede para ficar só. A mãe desiste, não entende absolutamente nada dos conflitos da filha, suas angústias, dúvidas. Não insiste e vai embora. Desiste.

Não sabe quanto tempo ficou assim, mas percebe que a noite se aproxima, que escurece. Levanta, volta ao jardim e, desta vez, senta no chão. Lentamente, começa a olhar suas fotos antigas. Em cada uma, a felicidade transparece nos momentos fotografados. Eles mostram os passeios de uma garota alegre, feliz, cheia de sonhos, divertida. Paula sabe que não é mais essa menina quase mulher de olhos iluminados. Chora mais uma vez. Está triste.

Enquanto faz carinhos em Nick, inicia a leitura do novo livro.  A noite chega suave, porém um tanto ameaçadora. A tarde passou rápida, mas ela está bem melhor, mais segura do que precisa decidir, e faz planos para o seu amanhã. Planos pessoais. Toma a decisão que pensou jamais querer para sua vida: Quando Nathan chegar, seu namorado conservador de muitos anos, vai dizer a ele que finalmente decidiu largar o emprego, aquele cargo tão duramente conquistado para, enfim, aceitar seu pedido de casamento, ter os filhos que ele tanto deseja e, se possível, ser feliz. 

Decisão tomada, Paula volta a chorar copiosamente.



Nada poder ser reparado em caminhos pré definidos



O casamento foi marcado. A demissão solicitada. E ela passsou a ter tempo, até demasiado, para cuidar dos preparativos para a belíssima cerimônia que oficializará sua união com Nathan. 

Mas verdade seja dita: é difícil saber se de fato Paula está feliz. Ela sempre anda cabisbaixa, com o olhar tristonho, alegando muito cansaço e desconforto mental. Reconhece que seu cotidiano segue passo a passo tudo o que foi decidido e planejado entre ela e os familiares de ambos os lados.

A vida atual é tranquila e sem atropelos, mas reconhece que, sinceramente, tanta normalidade nunca fez parte de seus sonhos ou metas para o futuro. Sempre gostou de desafios profissionais, correria, e de agitação social.

Sabe-se lá porquê, ao conhecer o belo Nathan, ela passou a acreditar que casamento era o melhor caminho a seguir. Nathan era inteligente, bem humorado e encantador. Sabia como expor as idéias e a todos convencer, principalmente quando o assunto era sobre felicidade, filhos. Em pouco tempo de namoro, a reviravolta: Paula se afastou dos amigos, do trabalho, e até da família. Apenas se ocupava dos preparativos para a grande festa de casamento. Queria tudo perfeito. Ao lado de Nathan, ela se sentia uma mulher feliz, tranquila, e realizada, mesmo sem lembrar da última vez que sorriu.

Numa bela tarde de sol, já com tudo preparado, e faltando poucos dias para a cerimônia, ela foi com a mãe ao atelier da estilista que criou um visual personalíssimo, e de acordo com seus desejos. Ao colocar o vestido de noiva, olhou-se atentamente no espelho. "Sim,  estava belíssima", pensou. "Mas quem era aquela mulher"?, perguntou a si mesma, perplexa. Diante do olhar de admiração da mãe, e da imagem de conto de fadas, refletida no imenso espelho à frente, Paula simplesmente surtou. De novo. Violentamente.

Desta vez, com a crise inesperada, e certa de que nunca ambicionou ser aquela mulher, arrancou o vestido do corpo, vestiu o jeans e a camiseta que estavam ao lado, e saiu correndo por calçadas e ruas desconhecidas. Mas nem o choro convulsivo, desesperado, era capaz de aliviar o  sofrimento, a dor que sentia. Tudo parecia um terrível pesadelo, do qual era impossível acordar.  Estava exausta. Entrou no primeiro taxi que surgiu, balbuciou algumas palavras, e adormeceu.

"Chegamos! Senhorita! Senhorita!  -  Era o motorista tentando acordá-la. Impossível. Paula estava inerte, deitada, um quase sorriso dava-lhe alguma coisa de infantil, como se estivesse em paz e ainda  dormindo, só que Paula já tinha partido. 

Lia Estevão  -  Jornalista

Produtora de fotolivros e albuns impressos  



Vamos construir um futuro melhor?


 Bom janeiro meus amigos. O tempo passa tão célere que, quando damos uma relaxada nos afazeres, a realidade do aqui e agora, nos assusta: sem perceber, envelhecemos e nossos sonhos ainda estão quase todos incompletos. Não, deve ser um engano - pensamos rapidamente - ainda estamos no início da caminhada. Mas o espelho, a falta de energia, e  dores aqui e ali. nos conscientizam do momento real. 

Digo isso porque, a todo início de ano, é sempre a mesma coisa: deixar a vida mais leve e feliz com uma série de novas atitudes. E que desta vez é prá valer. Acontece que vamos protelando, justificando a demora e então, de repente, já é Natal e Revéillon de novo, e de novo, e de novo...até percebermos que a fase de lutas e conquistas terminou. Que agora só nos esta ter uma vida mais tranquila e com outros objetivos. 

Pergunto: você se preparou psicológica e financeiramente para essa realidade? 

De acordo com pesquisas recentes, de cada 100 pessoas apenas umas 30 chegam, nessa altura da vida, com autonomia para escolhas. Ao contrário de quando estavam ativas, agora o dinheiro é pouco e as despesas imensas. O que era destinado para o lazer, agora vai para os medicamentos necessários, e as oportunidades de correção de rumo, quase nulas.

A vida deixa de ser tranquila. Você deixa de ter esperança. Não faz novas amizades. Não tem sonhos nem objetivos. É quando a depressão chega de mansinho. Ameaçadora. Pronta para se instalar em todo o seu ser. 

Amiga, não permita que esse momento chegue em sua vida. Estude, pesquise, informe-se e, sem demora, tome as providências necessárias para um envelhecer digno, tranquilo, e só de alegrias.  Se já não podemos modificar o começo ainda podemos, com certeza, construir o futuro dos nossos sonhos.


Mil beijos     






   


Carta de final de ano

 Grupo de Cinema de 2022

 Carta de Final de Ano


O fim do ano sempre nos faz repensar a vida.
  Época adequada para refletir sobre o que fizemos, deixamos de fazer e o que plantamos para colher no próximo. Também de fazer um balanço das relações familiares, das amizades conquistadas, e das muitas negligências provocadas pela pressa e pelo excesso de atividades. Umas necessárias, outras nem tanto.

Fui feliz em 2022?

Essa é a pergunta que devemos responder agora em dezembro, sabendo que objetos desejados são alegrias instantâneas, como trocar o carro, por exemplo. Ou comprar a roupa dos sonhos. E sabendo também que nenhuma felicidade é mais duradoura do que aquela que vem quando estamos perto das pessoas que amamos, ou da sensação reconfortante, gostosa, de ter amigos fiéis a quem podemos telefonar no meio da noite e pedir carinho.. .Ou socorro!

Verdade: pessoas nos trazem muito mais felicidade do que objetos, coisas. Pertencer a um grupo é, sim, muito melhor do que amontoar objetos e coisas...



Quando decidimos fazer um curso, uma oficina com gente desconhecida é porque aceitamos nossas fragilidades afetivas, porque em algum momento fomos sovinas de carinho.  De dizer “eu te amo” para os amigos. Chegamos no último trecho da vida melancólicos, entediados, quase que sozinhos. Sem o grupo dos nossos sonhos. E, às vezes, com muitas “coisas”, “objetos”, acumulados. Não é o suficiente.

Uma das muitas possibilidades de corrigir trajetos insípidos, sem graça, é decidir fazer uma oficina de fotografia e de cinema no Cemac, com a professora Iasha, mulher inteligente, meiga, amiga, de personalidade forte. O grupo deste ano foi incrível e excedeu as expectativas: pequeno, mas comprometido e disposto a interagir com empatia e solidariedade, a aprender e a produzir. E como ninguém é de ferro, houve muita comilança, sim!


O resultado desse “encontro” foi incrível: novas amizades surgiram, reuniões sempre alto astral e bem humorados, um documentário sobre Coletivos Culturais, e um vídeo de seis minutos sobre Aposentadoria. Além da exposição dos trabalhos, na entidade, em noite de gala. Uma ida ao Teatro Municipal também fez parte do programa. Tudo com a Covid 19 atazanando nossos dias.


Diogo, José Carlos, Wilma, Lia, Germano e Iasha... Estamos de parabéns!  E hoje, 06 de dezembro, vamos nos confraternizar porque felicidade é estar cercados de amor. Ter um grupo para chamar de nosso.


Um beijo e feliz Natal para todos! 

Que venham o ano de 2023
União e muitos projetos


     
06 de Dezembro - Reunião 



 
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